
Somente a Música
Kristine Kathryn Rusch
Tradução: Sandra Pina
Título original em inglês:
Except the Music
© 2006 by Kristine Kathrin Rusch
Copyright para a edição digital em todas as línguas © Digitpub srl 2010
via Adige 20 - 20135 Milano, Italia
www.40kbooks.com - info@40kbooks.com
ISBN 978-88-6586-004-5
Capa e projeto gráfico: Roberto Grassilli
warehouse.robertograssilli.com
Este título também está disponível em Inglês e italiano
Impresso em formato .epub em julho de 2010
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Somente a Música
Kristine Kathryn Rusch
“A que lugar os músicos vão para morrer?” Ela repousava sobre um cotovelo, seu cabelo cor de mel espalhando-se pelo braço até o travesseiro. O resto de seu corpo estava escondido pelo edredom de linho, que espantava o frio.
Max parou, com o smoking preto (perfeito para o concerto) em sua mão direita. A pergunta o irritou. Ela ouvira o comentário que ele tinha feito mais cedo a um dos artistas do festival: os músicos vão a lugares como este para morrer.
Seu rosto corou. Ficou feliz em estar de costas para ela. Ergueu-se sobre o pé que já estava com a meia e pegou o outro sapato. “Era uma piada.”
Sua voz era suave, gentil, como se fosse o tipo de homem que não tivesse nenhuma malícia. Ele sabia que isso não era verdade, e tinha um palpite de que ela também sabia. Mas não poderia ter certeza; sabia muito pouco sobre ela.
“Eu sei que era”, ela disse, ajeitando os travesseiros e puxando o edredom sobre seus fartos (e não falsos) seios. “Ainda assim, me fez pensar.”
Ele abotoou parte da camisa, enfiou a gravata borboleta no bolso da calça e procurou pelo paletó. O quarto parecia menor do que duas horas antes. Ao chegar, até lhe parecera charmoso. Tetos inclinados, grandes janelas com uma espetacular vista para o oceano, uma cama bem no centro (o que o surpreendeu), duas poltronas antigas próximas a uma luminária curva, e uma pequena mesa diante da minúscula cozinha. As paredes eram revestidas do chão ao teto por estantes repletas de livros de bolso, bastante manuseados. Até ver isso, ele teria achado que ela era uma turista de fim de semana, como tantos outros, naquela desolada cidade costeira.
“Pensando?”, ele perguntou. “Sobre a morte?”
Ela deu de ombros e acendeu a luminária da mesa ao lado da cama. Ele não havia notado antes nem a luminária, nem a mesa. É claro que ele estava preocupado.
“A morte é um hobby que eu tenho”, ela disse tão calmamente que o deixou nervoso.
Ele finalmente se virou para ela. Devia ter uns quarenta anos, mais ou menos, mas, ainda assim, era bela de um jeito maduro, algo que ele raramente via fora das grandes cidades.
Não se parecia nem um pouco com uma típica fã de música clássica. Já que, seguramente, a maior parte eram mulheres de meia-idade, com tempo demais para gastar, e cuja beleza (se é que um dia possuíram alguma) havia se esvaído. Ostentavam agora uma beleza suave, ou um olhar competentemente inteligente em suas faces cansadas. Seu jeito de vestir fazia com que parecessem bibliotecárias, e ele sempre percebia nelas um certo desespero.
Ela se destacara desde a primeira noite do festival, usando uma blusa de seda lavanda que deixava quase louro seu cabelo cor de mel. Lembrava talvez uma estátua, muito arrumada para o litoral do Óregon, e mesmo assim, ele tivera a impressão (e ainda tinha) de que ela se arrumava com esmero para todos os concertos que ia. Seus cabelos eram longos, enquanto que a maioria das mulheres de meia-idade os usava bem curtos. E não usava maquiagem. Não precisava.
“Você parece assustado”, ela disse, e foi quando ele percebeu o quanto estava ridículo. Ele ainda estava com o sapato na mão, um pé calçado com a meia até o joelho, a camisa desabotoada e as calças abertas.
Era um homem que tentava escapar. Um homem que havia feito daquele caso de uma noite algo tão agradável quanto havia sido. Um homem que deveria discernir melhor as coisas, mas que havia (mesmo do alto de seus 45 anos) deixado seus pênis comandá-lo.
“Eu simplesmente nunca ouvi ninguém dizer que era especialista em morte”, ele disse.
“Eu não sou especialista”, ela afirmou. “Eu me interesso.”
Ela fuçou a única gaveta da mesa detrás da cama, finalmente retirando um cigarro, com um certo ar de triunfo. Max se assustou. O lugar não cheirava a cigarro, mas aparentemente isso não significava nada. Ela também não tinha gosto de tabaco. Talvez o cigarro fosse de um tipo diferente.
Ela acendeu o cigarro e ele percebeu que estava certo e errado ao mesmo tempo. Era realmente de um tipo diferente. Apenas não esperava o cheiro de cravo ao invés de maconha.
“Eu não teria comprado os ingressos para a temporada se não fosse pelo nome de Mozart na programação.” Ela deu um longo trago no cigarro, e deixou que a fumaça saísse lentamente de seus pulmões. “Eu amo tanto aquele réquiem. Acho que é o melhor de todos.”
Max não achava; ele preferia o de Fauré. “Mozart nunca o terminou. Existe uma discussão sobre o quanto do réquiem é dele.”
“Exatamente.” Ela apontou o cigarro em sua direção, num movimento de fumante experiente. “Um réquiem composto parcialmente por um homem morto. Não acha isso incrivelmente apropriado?”
“Acho mais apropriado eu encontrar meu paletó antes de ir embora.” Ele calçou o outro pé do sapato. “Você viu onde eu o deixei?”
Ela deu um sorriso malicioso. “Eu não estava olhando para as suas roupas.”
Ele lhe sorriu de volta, também maliciosamente. Ela não precisava saber que o estava assustando.
Ele se levantou, procurou pelo paletó do smoking que havia lhe custado provavelmente mais do que ela pagara por qualquer coisa daquele lugar. Lembrou-se da sensação. Devia ter uns vinte anos, foi antes de casar... A sensação deprimente de que, se tivesse levado ao menos cinco minutos conversando com aquela mulher, jamais a teria levado para a cama.
Então ele encontrou o paletó, sobre um falso tapete persa.
“Você não precisa correr”, ela disse.
“Na verdade, preciso”, ele respondeu, pegando o paletó num movimento hábil. “Estou ficando com uma família local, e seria grosseiro acordá-los porque fiquei fora até muito tarde.”
Ela deu de ombros e fez um beicinho. “Então não vá para casa.”
“Sou uma celebridade”, ele respondeu com um leve traço de ironia. “Eles estão cuidando de mim.”
Falava como se fosse uma criança novamente, e eles fossem seus pais. Ele odiava essa parte dos festivais de música e, independente do quanto os organizadores lhe explicassem, ainda não entendia a questão. Sentia como se os patronos, que haviam gasto milhares de dólares patrocinando a música no interior, também tivessem comprado um pedaço dele, mesmo que ninguém agisse como tal. Todos pareciam sentir-se honrados que um homem com suas habilidades se dignasse a visitar suas casas.
Ele preferia que deixassem 500 dólares de diária por uma suíte em um hotel local, mas isso não acontecia. Se optasse por isso, o dinheiro teria de sair de seu próprio bolso. E com as vendas de CD caindo drasticamente, e a música clássica passando por um expressivo declínio, ele precisava se preocupar mais com seu bolso. Ainda possuía muito dinheiro em relação aos padrões da maioria, mas também tinha a impressão de que aquele dinheiro teria de durar pelo resto de sua vida.
“Coitadinho do pobre miserável”, ela disse com um sorriso. Fora aquele sorriso largo, acolhedor, e convidativo, que o trouxera até ali.
“É”, ele concordou, “coitadinho do pobre miserável.”
E, com isso, ele escapou pela porta da frente e para a noite fria e enevoada. Enquanto percorria de volta, e a pé, as três quadras para o centro de artes performáticas (construído vinte anos antes, com fundos levantados no festival), deu-se conta de que nem mesmo sabia o nome dela.
Ele perdera a prática. Houve um tempo em que descobriria o suficiente sobre ela para se precaver durante o resto do festival. Agora teria de evitá-la.
Suspirou, sentindo a precisão de sua declaração anterior.
Realmente era para aquele lugar que os músicos iam para morrer.
***
O North County Music Festival levava anualmente muitas milhares de pessoas para o litoral do Óregon. Max havia ido todos os anos, desde o primeiro, principalmente por causa de Otto Kennisen, o gênio por trás de tudo aquilo. Otto colocara Max sob suas asas quando ele tinha quatorze anos, e Max se sentia grato por isso.
O festival crescera de uma pequena comunidade de músicos conhecidos internacionalmente, que buscavam uma projeção costeira em um dos mais respeitados festivais de música clássica do Noroeste. Embora isso não significasse mais muita coisa.
Quando ele começou na música profissional como um aclamado prodígio, cerca de trinta anos antes, o cenário internacional da música era repleto de festivais desse tipo. As vendas de música clássica eram sempre altas, e alguns músicos se tornavam superestrelas.
Agora, a música não era mais ensinada nas escolas ou muito tocada nas rádios. O que era tocado eram os Top 40 Clássicos – trechos aceitáveis de Bach, Mozart ou Beethoven, raramente as peças completas, e nunca o trabalho de compositores difíceis, como Schoernberg ou Stravinsky.
A Europa ainda amava sua música clássica, mas também amava seus músicos clássicos, preferindo qualquer um com um pedigree europeu, no lugar de alguma pretensiosa estrela americana.
Max tinha conseguido se sustentar fazendo turnês e tocando (as vendas de seu CD haviam caído, mas não tanto quanto as de algumas das superestrelas antigas), mas as mudanças o incomodavam. Antes, fazia turnês pelas grandes casas de concertos em Portland e Seattle. Agora viajava por festivais de música, e aumentara suas apresentações com as respeitáveis orquestras remanescentes.
Ele parou do lado de fora do centro de artes performáticas. Estava com a chave. A única concedida a artistas, além da que fora dada a Otto. Deu a volta até a porta dos fundos, e entrou.