
Radiação
Jacob Appel
Radiação
Jacob Appel
Tradução: Sandra Pina
Título Original em Inglês:
Fallout
© 2004 by Jacob Appel
Copyright para a edição digital em todas as línguas
© Digitpub srl 2010
via Adige 20 - 20135 Milano, Italia
www.40kbooks.com - info@40kbooks.com
ISBN 978-88-6586-007-6
Capa e projeto gráfico: Roberto Grassilli
warehouse.robertograssilli.com
Este título também está disponível em Inglês e italiano.
Impresso em formato epub em julho de 2010
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Smashwords Edition, Licence Notes
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Radiação
Jacob Appel
Após um longo dia fabricando brinquedos eróticos que tocam música, o marido de Maggie estuda sobre guerra química na mesa de mogno da sala de jantar. Ele afirma que seu conhecimento é a única coisa que irá permanecer para sempre, pois um gênio será sempre um gênio.
Primeiro reúne todo o material experimental (como calcinhas que cantam ‘Deus Abençoe a América’ e clarinete com formato de pênis que toca grandes sucessos de Benny Goodman) e os esconde embaixo da pia. Depois, empilha em seu lugar alguns livros, cujos títulos são os mais ameaçadores: ‘Holocausto Químico do Futuro’, ‘Um Guia do Bioterrorismo para Idiotas’ e ‘Armas de Destruição em Massa’. Ele pesquisou quase uma sessão inteira da biblioteca e por isso Maggie teve receio do que as bibliotecárias poderiam pensar. Ela até está tentando ser paciente e compreensiva (é isso o que enfermeiras da pediatria costumam fazer, afinal de contas), mas não suporta mais as palestras noturnas de Frank sobre gases paralisantes e agentes virais.
O profundo medo de Maggie frente ao nervosismo do marido, a surpreende. É ela, e não ele, quem deveria estar traumatizada. Era ela quem estava no centro da cidade, renovando a carteira de motorista, quando o World Trade Center caiu; era ela quem estava entre os que fugiam sem rumo pela ponte da Rua 59. Ele estava em seu escritório, em Jersey, vendo a CNN. Mas, três dias após a tragédia, depois de conferirem que todos os amigos estavam vivos, e ela voltara a ouvir os clássicos no rádio, no lugar das notícias, e quando estava achando que naquela noite eles iriam novamente tentar engravidar, Frank voltou do escritório carregando três caixas cheias de livros.
Ele sorriu com os lábios, mas não com os olhos, e disse: “Só quero pesquisar umas coisas”. Ela lembra bem dessa mesma frase, nos meses finais da faculdade de direito, quando ele trouxe para casa livros que ensinavam a começar um negócio. Ele leu compulsivamente durante várias semanas e então profetizou: “Querida, nós vamos ficar ricos”. Agora, enquanto fecha o último dos livros, ele anuncia, com a mesma certeza: “Vamos todos morrer”.
Maggie vai para trás da cadeira do marido e massageia seus ombros. Ela havia pedido um pad thai de ostras, e até tinha acendido uma vela na cozinha. “Se isso for acontecer”, ela diz, acariciando seu peito por debaixo da gravata, “morramos como coelhos.”
“Estou falando sério”, insiste Frank. Ele se mexe; ela retira as mãos. “O que faremos quando eles começarem a borrifar sarin nos metrôs?”
“Por favor, Frank”, ela reclama. “Estou de pé desde as cinco da manhã.”
“Eu sei que você não quer ouvir isso”, ele insiste. “Mas vai ouvir. Eu amo você demais para deixá-la morrer por antraz ou botulismo.”
“Ninguém vai morrer de nada”, ela enfatiza.
“Não. Ainda não.”
Maggie segura a mão de Frank e pressiona contra sua barriga. Esse é o código para... “Vamos fazer um bebê.”
Frank se solta. “Tenho pensado sobre isso também”, diz. “Você realmente quer trazer outra pessoa para um mundo como este...”
Ela volta para a cozinha e guarda a comida intocada. Ele a segue e tenta abraçá-la pela cintura, mas ela se solta. “Eu quero ter um bebê”, ela fala rispidamente. “Três semanas atrás nós queríamos ter um bebê. O que está acontecendo, Frank?”
“Talvez seja apenas algo no ar”, ele diz. “Não sei.”
Mas quando Maggie o vê esparramado na cadeira da cozinha, com as mangas arregaçadas e os braços peludos expostos, ela amolece rapidamente. “Posso fazer alguma coisa?”
“Estou sentindo uma coisa aqui dentro”, diz Frank. “Quando eu disse, cinco anos atrás, que os pênis cantantes iriam mandar nossos filhos para a faculdade, você acreditou em mim. Então, acredite agora!”
“Estou tentando.”
“Vamos mudar para o interior, para o meio do nada!”
Ela se cala.
“O que realmente nos prende em Nova York?”, ele pergunta. “Poderíamos ir para as Montanhas Canadenses. Poderíamos fazer alguma coisa. Poderíamos começar uma fazenda em Vermont.”
“Somos judeus”, diz Maggie. “O que sabemos sobre fazendas?”
“Foi exatamente isso o que tio Mendel disse em Hrodna. ‘Somos judeus. O que sabemos sobre a América?’”
Eles estavam casados há seis anos e ela ainda não identificava direito os parentes dele. “Mendel foi o que tentou assassinar o Czar, certo?”
“Não”, ele explica. “Esse é o meu primo, o pequeno Mendel. Meu tio Mendel, foi o que morreu em Treblinka.”
Frank e Maggie compraram três acres em Millbrook Heights e um antigo vagão foi convertido em casa. No exterior foram preservadas as portas antigas e os tijolos amarelos do século dezessete. A estrutura interna foi agraciada com novos quartos, uma varanda e uma jacuzzi. Um carvalho de trezentos anos ocupa o quintal. Financeiramente, é claro, o lugar foi um ótimo investimento. Por outro lado, acrescenta mais uma hora ao trajeto diário de Maggie. No entanto, a vantagem é que eles estão a uma distância razoável do rio Hudson, e bem além do que Frank chama de zona de impacto. Se a Times Square fosse bombardeada com napalm, eles nem notariam. E existem outras vantagens: eles poderiam mandar os futuros filhos para boas escolas públicas, plantar seus próprios legumes e visitar o pai de Maggie nos finais de semana. E quando a primavera chegar, poderão, inclusive, trazer o velho para casa, e cultivar abóbora e abobrinha.
O pai de Maggie está cumprindo pena de três anos por falsificação de quadros: falsificou diversas paisagens marinhas compradas em um bar litorâneo e as vendeu para um magnata da indústria de software como sendo autênticos Winslow Homers. Como o júri o inocentou de um crime mais grave (ele usara o lucro para inocentar sua amante), ele foi enviado para uma prisão de segurança mínima, em Wardelsburg. Maggie ficou ao seu lado, mesmo contra a mãe, e leva para o pai picles de Riverdale, arenque marinado e cópias antigas da revista Equestrian Life. Sua irmã mais nova, bibliotecária em um navio de cruzeiro, manda charutos do exterior.
Mas a irmã é inesperadamente demitida, arranja um emprego como garçonete e vem morar com eles enquanto se organiza. Tudo acontece muito rápido. No primeiro domingo na casa nova, menos de um mês após o atentado do World Trade Center, os três resolvem ir de carro passar a tarde em Wardelsburg.
A prisão de Wardelsburg havia sido um forte antes da guerra civil. Maggie leva almoço para um piquenique no gramado e havia recomendado diversas vezes para que sua irmã se vestisse discretamente, mas a ideia de Carreen sobre discrição implica obrigatoriamente em deixar sua barriga de fora.
Frank deixa as duas no portão, mas não entra. Não existe qualquer afinidade entre ele e Jack Sheldrake: o velho desaprova veementemente os negócios do genro. “Você precisa estabelecer um limite!”, ele grita, enquanto Frank chama Sheldrake pelas costas de O Velho emplumado. Se Maggie ou Carreen soubessem dirigir, ele certamente ficaria em casa.
Quando retorna para buscá-las, seis horas mais tarde, não consegue resistir e pergunta: “Por acaso O Estrangulador de Boston enganou mais uma vez O Velho Emplumado no pôquer?”
“Você sabe que não é esse tipo de prisão”, reclama Maggie. “Já disse que papai divide a cela com dois senadores e um ex-juiz federal.”
“O Estrangulador de Boston está morto”, informa Carreen. “Ele foi esfaqueado na prisão.”
Frank ri debochado. “O Velho Emplumado assumiu essa culpa também?”